O ISO Survey 2024 — publicado em outubro de 2025 — registra 1.474.118 certificados ISO 9001 vigentes em nível global. O número exige a ressalva metodológica que esta casa adota antes de qualquer celebração: o salto em relação à edição anterior reflete uma mudança na fonte do levantamento — a série passou a ser construída com base no registro IAF CertSearch, com cobertura plena de organismos que antes informavam voluntariamente — e não crescimento real do mercado. O que a série de fato sustenta, edição após edição, é o dado estrutural: a América Latina concentra uma fração menor do total global e certifica uma ordem de grandeza abaixo dos líderes mundiais. Uma ordem de grandeza não se explica pela conjuntura. Este relatório organiza suas causas.
Reconhecimento formal, adoção real
A acreditação internacional opera desde 2026 sob a Global Accreditation Cooperation Incorporated (Global ACI), que integra as funções anteriormente desenvolvidas por IAF e ILAC. Seu Multilateral Recognition Arrangement (MRA) sustenta o reconhecimento internacional de resultados acreditados de avaliação da conformidade, com continuidade para os reconhecimentos existentes durante a transição.
Mas a assinatura de um acordo multilateral não produz adoção. As organizações latino-americanas que certificam o fazem impulsionadas por uma pressão específica — exportação, cadeia de suprimentos, requisito de licitação pública, exigência regulatória setorial. A adoção voluntária para melhoria interna é estruturalmente menor do que em mercados com maior pressão do cliente final. O acordo garante que o certificado seja reconhecido; não garante que alguém o peça.
Três causas estruturais
Primeira causa · regulação que não recompensa. Os regimes latino-americanos tendem a substituir a certificação voluntária por autorizações administrativas específicas. Uma empresa argentina que cumpre os requisitos da autorização da ANMAT, da certificação bromatológica municipal e do registro de empregados não recebe nenhum incentivo adicional por acrescentar a ISO 9001. A certificação fica contabilizada como despesa, não como economia de atrito regulatório. E o que se contabiliza como despesa é cortado primeiro.
Segunda causa · cadeias que não exigem. Enquanto uma organização automotiva europeia exige certificação de seus fornecedores de segundo e terceiro níveis, a cadeia latino-americana se contenta com auditorias de segunda parte: o cliente audita o fornecedor sem exigir certificado de terceira parte independente. O efeito é a ausência de pressão sobre o conjunto de pequenas e médias empresas — o segmento da economia em que a lacuna é produzida.
Terceira causa: o certificado como destino. Nas organizações que de fato avançam, o certificado é tratado como meta administrativa, não como ponto de partida operacional. Passada a auditoria inicial, o sistema fica onde estava. A melhoria contínua que a norma exige no papel não se concretiza na prática. O desfecho é uma patologia conhecida em campo · certificado válido sobre operação obsoleta.
O que o número global não captura
A estatística internacional conta documentos emitidos, não qualidade operacional. Uma organização com sistema vivo e sem certificado pode operar melhor do que uma certificada com sistema decorativo. A auditoria séria distingue ambos os casos na primeira manhã de visita ao local.
Por isso, o número de certificados ativos pode superestimar a qualidade operacional real na LATAM. O problema não está na certificação como ferramenta; está no uso ornamental do certificado, quando o sistema documentado não sustenta a operação cotidiana.
Como fechar a lacuna
O caminho para fechar a lacuna não é certificar mais rápido. É certificar melhor. Quatro componentes operacionais —
- Auditoria com critério profissional, não checklist administrativo
- Telemetria entre auditorias, não uma fotografia anual isolada
- Imparcialidade declarada e gerenciada · §5.2 ISO/IEC 17021-1
- Acreditação sob Global ACI / MRA ou marco equivalente aplicável, com verificação de evidências, e não apenas reconhecimento nominal
A lacuna se fecha quando o certificado deixa de ser uma declaração e se torna uma conclusão. Até então, os números agregados continuarão contando formulários assinados, não organizações que funcionam.