Há uma pergunta que o auditor faz com regularidade inquietante em organizações que se apresentam como tecnicamente sérias. A pergunta é esta · quem decidiu isso.


As respostas chegam em ordem previsível · o comitê decidiu, a gestão anterior aprovou, a equipe técnica determinou. Quando insisto em saber quem foi a pessoa específica, surge o silêncio. Ou surge a rotatividade. Ou surge o funcionário que já não está mais.

A opacidade institucional com aparência de governança

O que essas respostas descrevem tem nome técnico · opacidade institucional com aparência de governança. A organização tem políticas, comitês, atas, relatórios — e por trás das decisões críticas não há atores identificáveis. Essa opacidade raramente é corrupção. Quase sempre é uma forma cultural de cobrir o risco individual às custas da rastreabilidade coletiva. Se ninguém assina, ninguém sustenta. Se ninguém sustenta, ninguém pode ser interpelado.

Este critério desenvolve o ator do Critério 02. O DORA atribui ao órgão de direção a responsabilidade final pelo risco de TIC nas entidades financeiras abrangidas; as tarefas operacionais podem ser distribuídas, a responsabilidade de governança permanece (art. 5). Em outro contexto, a FCA confirmou a inabilitação e uma multa de 1,1 milhões de libras ao ex-diretor executivo do Barclays por falta de integridade e declarações enganosas (FCA, 2025). Os dois processos mostram o mesmo a partir de planos distintos · o organograma não dissolve a responsabilidade que a regulação atribui.

Três patologias da assinatura

Patologia 01 · a assinatura coletiva sem signatário real. O documento diz aprovado pelo comitê. Sete membros. Nenhum assume individualmente. Se a decisão der errado, o custo é repartido até se tornar invisível. A ata existe. A responsabilidade individual ficou diluída no desenho.

Patologia 02 · a assinatura em rodízio que rompe a trajetória. As decisões são assinadas, mas o signatário muda a cada seis meses. Três anos depois, nenhum dos que assinaram continua na organização. A rastreabilidade existe no papel e é operacionalmente inalcançável · a decisão crítica foi assinada por alguém sem obrigação de responder e, provavelmente, sem memória do contexto.

Patologia 03 · a assinatura do consultor que concluiu o projeto. O consultor externo assina o relatório, recebe os honorários, encerra o contrato. Três anos depois, quando o incidente remete à sua recomendação, o vínculo contratual já expirou. Sua assinatura foi real naquele momento. Hoje é tinta sem obrigação por trás.

Quando uma máquina decide

A pergunta desta década é direta · se um agente de IA tomou a decisão técnica, quem é o responsável identificável? A doutrina responde sem mistério · o responsável pela decisão automatizada é quem deixou que ela fosse automatizada. Quem definiu os limiares. Quem aprovou a implantação. Quem tinha autoridade para freá-la e escolheu não olhar para ela. A IA pode decidir rápido. Não pode assumir a responsabilidade.

O programa australiano Robodebt levou essa pergunta aos registros públicos. A Comissão Real documentou falhas de desenho, legalidade, assessoramento e supervisão em torno de uma decisão automatizada (Robodebt, 2023). O sistema executava; as decisões que o viabilizaram e mantiveram continuaram sendo humanas e institucionais.

A regra operacional exige um responsável pelo sistema e um registro proporcional ao impacto · dados de entrada relevantes, resultado, versão, controles aplicados, revisão humana quando cabível e autoridade para intervir. Nem toda saída exige assinatura individual; toda arquitetura de decisão precisa de uma função responsável identificável.

A IA pode decidir rápido. Não pode assumir a responsabilidade.

Os cinco campos do profissional verificável

O responsável identificável é mais do que um cargo em um organograma · é um profissional verificável. Cinco campos consultáveis o definem.

Campo 01 · identidade comprovada. Nome verificável, função declarada. Sem esse campo, os outros quatro não têm onde se apoiar.

Campo 02 · trajetória documentada. Projetos assinados, relatórios com autoria identificável, funções com datas e organizações verificáveis. A trajetória se demonstra com autoria acumulada e consultável — não com a extensão do currículo.

Campo 03 · atualização técnica. Última atualização formal com data, tema e profundidade suficiente para o papel. A competência não se presume pelo tempo de serviço nem pelo nome do cargo; demonstra-se diante das decisões que a função deve tomar.

Campo 04 · evidência operacional. Projetos com papel específico · qual organização — ou qual setor, se houver confidencialidade — qual projeto, qual resultado documentado, quando.

Campo 05 · atualidade ética. Conflitos de interesse relevantes declarados e antecedentes verificáveis dentro dos limites de privacidade e confidencialidade aplicáveis.

Uma assinatura eletrônica ou criptográfica pode vincular identidade, documento e data quando a infraestrutura e a gestão de chaves são confiáveis. Não substitui a autoridade nem a competência do signatário. Primeiro deve existir alguém com poderes para responder; depois se escolhe como preservar a evidência de sua assinatura.

O teste do critério

Identifique uma decisão técnica relevante assinada no último trimestre sob sua direção. Procure a assinatura e aplique três verificações.

Verificação um · o signatário continua na organização — ou a decisão tem sucessor documentado, com ata de transferência e data? Resposta esperada · sim, em qualquer uma das duas formas.

Verificação dois · a autoridade do signatário para essa decisão estava documentada antes da decisão? Resposta esperada · uma delegação formal com data anterior à assinatura. A autoridade reconstruída depois do fato é a patologia um com melhores modos.

Verificação três · o signatário pode ser interpelado hoje · existe uma obrigação vigente, contratual ou funcional, de responder por essa decisão? Resposta esperada · sim, com canal documentado.

As três respostas permitem reconstruir a responsabilidade. Uma vacância não prova por si só uma falha material, mas mostra exatamente onde a decisão perdeu seu dono e o que deve ser corrigido.